Azares de gajo


Má sorte que ela fosse mercenária
It’s a miracle you’re not cynical.
Felt

Não era só a bela do bairro, era lusa Marilyn
dos arrablades portuenses. Alta, toda loira,
só lhe faltava miar. De longe e de perto a segui
ao longo dos anos mais tolos. Uma tarde,
no acaso de uma rua: meu amor perdido,
ainda moras em Vilar do Paraíso?
Quando lhe telefonei dias depois
quis perguntar quanto é que eu ganhava.
Ao saber que era tudo lágrimas e livros,
ouvi - ai sim? - como arrefecia o paraíso
do outro lado da linha. Os meus 25 anos
aprenderam aí uma lição qualquer.
Mas já não me lembro muito bem
que aplicação ela teve, na gorada sequência
desses meses. A que só volto, agora,
porque já posso rir-me à vontade.

José Manuel Silva, Vista para um Pátio seguido de Desordem, Lisboa: Relógio d’Água, 2003




[Foto © Robb, 2006]

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