Azares de gajo


Má sorte que ela fosse mercenária
It’s a miracle you’re not cynical.
Felt

Não era só a bela do bairro, era lusa Marilyn
dos arrablades portuenses. Alta, toda loira,
só lhe faltava miar. De longe e de perto a segui
ao longo dos anos mais tolos. Uma tarde,
no acaso de uma rua: meu amor perdido,
ainda moras em Vilar do Paraíso?
Quando lhe telefonei dias depois
quis perguntar quanto é que eu ganhava.
Ao saber que era tudo lágrimas e livros,
ouvi - ai sim? - como arrefecia o paraíso
do outro lado da linha. Os meus 25 anos
aprenderam aí uma lição qualquer.
Mas já não me lembro muito bem
que aplicação ela teve, na gorada sequência
desses meses. A que só volto, agora,
porque já posso rir-me à vontade.

José Manuel Silva, Vista para um Pátio seguido de Desordem, Lisboa: Relógio d’Água, 2003




[Foto © Robb, 2006]

A árvore de cheiros és tu


Basta-me o cheiro da tua pele, o folhear dos poros do teu corpo, a leitura das tuas emoções mesmo as das letras miúdas de cada gesto. Não gasto árvores e leio on line.

[Foto © YanBlog ]

PI do desejo

A libertação do desejo conduz à paz interior
Lao-Tsé


[ © Jeremiah]

Discurso do filho da puta


O pequeno filho da puta
é sempre
um pequeno filho da puta;
mas não há filho da puta,
por pequeno que seja,
que não tenha
a sua própria
grandeza,
diz o pequeno filho da puta.

no entanto, há
filhos-da-puta que nascem
grandes e filhos da puta
que nascem pequenos,
diz o pequeno filho da puta.
de resto,
os filhos da puta
não se medem aos
palmos,diz ainda
o pequeno filho da puta.

o pequeno
filho da puta
tem uma pequena
visão das coisas
e mostra em
tudo quanto faz
e diz
que é mesmo
o pequeno
filho da puta.

no entanto,
o pequeno filho da puta
tem orgulho
em ser
o pequeno filho da puta.
todos os grandes
filhos da puta
são reproduções em
ponto grande
do pequeno
filho da puta,
diz o pequeno filho da puta.

dentro do
pequeno filho da puta
estão em ideia
todos os grandes filhos da puta,
diz o
pequeno filho da puta.
tudo o que é mau
para o pequeno
é mau
para o grande filho da puta,
diz o pequeno filho da puta.

o pequeno filho da puta
foi concebido
pelo pequeno senhor
à sua imagem
e semelhança,
diz o pequeno filho da puta.

é o pequeno filho da puta
que dá ao grande
tudo aquilo de que
ele precisa
para ser o grande filho da puta,
diz o
pequeno filho da puta.
de resto,
o pequeno filho da puta vê
com bons olhos
o engrandecimento
do grande filho da puta:
o pequeno filho da puta
o pequeno senhor
Sujeito Serviçal
Simples Sobejo
ou seja,
o pequeno filho da puta.

II
o grande filho da puta
também em certos casos começa
por ser
um pequeno filho da puta,
e não há filho da puta,
por pequeno que seja,
que não possa
vir a ser
um grande filho da puta,
diz o grande filho da puta.

no entanto,
há filhos da puta
que já nascem grandes
e filhos da puta
que nascem pequenos,
diz o grande filho da puta.

de resto,
os filhos-da-puta
não se medem aos
palmos, diz ainda
o grande filho-da-puta.

o grande filho da puta
tem uma grande
visão das coisas
e mostra em
tudo quanto faz
e diz
que é mesmo
o grande filho da puta.

por isso
o grande filho da puta
tem orgulho em ser
o grande filho da puta.

todos
os pequenos filhos da puta
são reproduções em
ponto pequeno
do grande filho da puta,
diz o grande filho da puta.
dentro do
grande filho da puta
estão em ideia
todos os
pequenos filhos da puta,
diz o
grande filho da puta.

tudo o que é bom
para o grande
não pode
deixar de ser igualmente bom
para os pequenos filhos da puta,
diz
o grande filho da puta.

o grande filho da puta
foi concebido
pelo grande senhor
à sua imagem e
semelhança,
diz o grande filho da puta.

é o grande filho da puta
que dá ao pequeno
tudo aquilo de que ele
precisa para ser
o pequeno filho da puta,
diz o
grande filho da puta.
de resto,
o grande filho da puta
vê com bons olhos
a multiplicação
do pequeno filho da puta:
o grande filho da puta
o grande senhor
Santo e Senha
Símbolo Supremo
ou seja,
o grande filho da puta.

Alberto Pimenta, 1977

[Imagem do filme Salò o le 120 giornate di Sodoma de Pier Paolo Pasolini]

O amor, o ranço e a solidão


Part-time
Fifteen minutes with you I wouldn’t say no.
The Smiths

Durante muitos anos trabalhei em part-time
na Livraria Bakunine, ao Carregal
Não foram os anos mais felizes da minha vida,
pois o amor, o ranço, a solidão, a verdade
é que ficava muitas horas encostada à montra
a ver se tu entravas perguntando se eu tinha
segredos, sebes, aluviões ou a ignorância
da morte. Dir-te-ia que sim. Mas tu,
Gata Borralheira, só querias saber de astrologia,
de puericultura, de pronto a vestir para o outono
da alma. Raios te partam, rapariga,
como podia eu amar-te, tão estúpida eras.

José Manuel Silva, Vista para um Pátio seguido de Desordem, Lisboa: Relógio d’Água, 2003




[Imagem © Philbert, Gotta Love Kelly]

E salta Naide!

Para comemorar os 29 anos.




[Fotos de Enezaide do Rosário da Vera Cruz Gomes, mais conhecida como Naide Gomes, de © Getty Images, 22 de Julho de 2008 em Estocolmo; © Gonçalo Lobo Pinheiro, 2008, Naide Gomes; © Pedro Cunha, 2008, Naide Gomes]

A expedição infinita


O teu corpo é um território sim

O teu corpo é um território sim
deixa-me pensar que é assim e
assim o percorro em círculos
não o percorro sim apenas nele
sinto texturas cores cheiros ecos
mas penso em obstáculos não
não digas não é um território é
digo eu e digo e com fronteiras
por isso a progressão deve ousar
também não se pode parar não
há tempo o que falta não é tempo
não existe fim para esta expedição.

[Foto © Alex Korolkovas, 2008, L.A. Afternoon]

As certezas das mais brilhantes omoletas

Poema do professor Rómulo de Carvalho, também conhecido como poeta António Gedeão:

Cabeçudos e gigantones

Tua certeza eleva-se e recorta-se
no céu como um guindaste.
Hirta, metálica, adstrigente e fria,
como a encontraste?

Se eu devesse guardar-te respeito por teres um sorriso amável,
por serem castanhos os teus olhos ou por pisares o chão de certa maneira,
então respeitaria também a tua certeza inabalável
e dela te pediria um farrapo para arvorar em minha bandeira.

Faz-me pena a tua certeza como se tivesses sofrido um acidente,
como se te visse estendido num leito, impossibilitado de te mexeres.
Em tua certeza, cadeira de rodas, fazes-te conduzir piedosamente,
e os caminhos passam por ti sem tu passares por eles, e sem os veres.

Embrulhado na tua certeza, de rosto voltado para a parede,
adormeces sorrindo enquanto a vida, aos borbotões, exulta.
Foguete de lágrimas, meandros sem recta, catapulta,
veio de água que afoga e nunca mata a sede.

(Movimento Perpétuo, 1956)

Dançar tangos na minha rua

[vídeo gentilmente sugerido por Xico LF]

Musicól pimba


Os meus computadores
Em nada são iguais
E até o Hugo Chavez
É deles que gosta mais
Até o Hugo Chavez
É deles que gosta mais
Os meus computadores
Em nada são iguais

Abro o Excel e aparece
O Orçamento, que ternura
Tão leve que até parece
Fruto da minha loucura

Mas o Word ciumento
Quer brilhar na sua vez
Neste texto que é bem técnico
Ele corrige o inglês

Os meus computadores
Em nada são iguais
E até o Hugo Chavez
É deles que gosta mais
Até o Hugo Chavez
É deles que gosta mais
Os meus computadores
Em nada são iguais

E minha mão sobre o rato
Sem saber o que fazer
Imprimo outro diploma
Pr’aumentar ao meu saber

Que o Magalhães não encrave
Eu já pedi tanta vez
Pois enquanto ele trabalha
Faz feliz um português

Lalala-rala-ralala
Lalala-rala-rala
Lalala-rala-ralala
Lalala-rala-rala



[Letra e imagens gentilmente enviadas por email]

PI da fuga ao sofá

fugaoasofa

PI da fuga ao tédio

fugaoatedio

Evidências

Toda a gente sabe que uma mulher nua usa sempre saltos altos.

[Foto © Quark, 2005, Simple Life]

PI do Eu…


… hoje acordei assim.


… hoje fui à casa de banho assim.


… hoje tomei banho assim.

E assim irmanado este post com a melhor literatura das revistas cor-de-rosa já me sinto normalizada.



[imagens gentilmente enviadas por email e do extinto Sensual Project]

Sessenta

Sessenta anos completa hoje Mário Viegas, nascido em Santarém com o nome completo de António Mário Lopes Pereira Viegas e tudo o mais que digam é mentira. Da Silva.