Blogar é sudoku
Escrever um blogue é um sudoku da alma: uma viciante ginástica de manutenção para os miolos que exacerba a sensibilidade e nos convence que continuamos vivos.
Escrever um blogue é um sudoku da alma: uma viciante ginástica de manutenção para os miolos que exacerba a sensibilidade e nos convence que continuamos vivos.
O teu corpo como um livro
escrito em braille,
Nausica, deixei-o
no capítulo primeiro.
Inútil é pensar
nos parágrafos de luz
que prometias.
Feito está o erro.
Não é cego o amor:
é cego quem o troca
pelo hás de bem amado
da sua escuridão.
José Manuel Silva, Ulisses já não mora aqui, Lisboa: & etc, 2002
Impresa deverá registar prejuízo de 3,7 milhões de euros no terceiro trimestre de 2008
É o que faz andar a fazer publicidade disfarçada de notícias ao poder.
[Foto © Jorge Colombo, 2007, Glow]
é quando subimos os 581 degraus do Bom Jesus de Braga e não ficamos com a língua de fora?… ou é quando pagamos todas as prestações do mês?…
Pranto feito pelo dia de hoje
Nunca choraremos bastante quando vemos
O gesto criador ser impedido
Nunca choraremos bastante quando vemos
Que quem ousa lutar é destruído
Por troças por insídias por venenos
E por outras maneiras que sabemos
Tão sábias tão subtis e tão peritas
Que nem podem sequer ser bem descritas
notas para o diário
deus tem que ser substituído rapidamente por poe-
mas, sílabas sibilantes, lâmpadas acesas, corpos palpáveis,
vivos e limpos.
a dor de todas as ruas vazias.
sinto-me capaz de caminhar na língua aguçada deste
silêncio. e na sua simplicidade, na sua clareza, no seu abis-
mo.
sinto-me capaz de acabar com esse vácuo, e de aca-
bar comigo mesmo.
a dor de todas as ruas vazias.
mas gosto da noite e do riso de cinzas. gosto do
deserto, e do acaso da vida. gosto dos enganos, da sorte e
dos encontros inesperados.
pernoito quase sempre no lado sagrado do meu cora-
ção, ou onde o medo tem a precaridade doutro corpo.
a dor de todas as ruas vazias.
pois bem, mário - o paraíso sabe-se que chega a lis-
boa na fragata do alfeite. basta pôr uma lua nervosa no
cimo do mastro, e mandar arrear o velame.
é isto que é preciso dizer: daqui ninguém sai sem
cadastro.
a dor de todas as ruas vazias.
sujo os olhos com sangue. chove torrencialmente. o
filme acabou. não nos conheceremos nunca.
a dor de todas as ruas vazias.
os poemas adormeceram no desassossego da idade.
fulguram na perturbação de um tempo cada dia mais
curto. e, por vezes, ouço-os no transe da noite. assolam-me
as imagens, rasgam-me as metáforas insidiosas, porcas. ..e
nada escrevo.
o regresso à escrita terminou. a vida toda fodida - e
a alma esburacada por uma agonia tamanho deste mar.
a dor de todas as ruas vazias.
Al Berto, Horto de Incêndio, Lisboa: Assírio & Alvim, 2000
[Foto © DDiArte, 2008, Todos por um…]
Hum! O Carlos Queiroz a dar a táctica ao Mário Nogueira?…

[Foto © Franca Alejandra, 2007, Under my Umbrella]