Marginal

[Foto © Rui Alexandre Gomes Oliveira, 2007, Pormenor]
Quando rebati a idiotice do escritor maldito estava a atacar frontalmente (o visado era o Artur Ramos e a entrevista que deu ao jornal da RTP; a fama vinha muito de trás) um modus vivendi em que a maioria se deleitava: viver a melhor vidinha possível, considerando a Literatura não um acto de conhecimento e afirmação (desafio, contestação, intervenção, criação pura, total) mas uma mercadoria mais na sociedade de consumo. Uma mercadoria elevada, de alta condição, nobre, assim mais ou menos o que, na Era dos Descobrimentos, seriam as especiarias do Oriente longínquo: um condimento refinado. Não um jogo de vida ou de morte (connosco, com o Outro, com as palavras e as formas)- e era por aí que eu ia. Queria, tentava ir. Quase todos se deixavam levar pela ânsia da promoção social, económica, quando ela, a Literatura, deve ser ânsia (acho eu), o desejo da coerência, a unicidade. Uma forma de ser livre. Isto que, só no campo literário, leva a chatices (e passei por elas), na vida quotidiana, na luta pela sobrevivência própria ( e se há família, pior, tem várias saídas. O segundo emprego (leia-se: primeiro, o substancial emprego), o mecenato.
Em qualquer caso um compromisso. Porque absolutos não há.
Excerto de 24/10/ 74 de Luiz Pacheco, Diário Remendado, Lisboa: D. Quixote, 2005






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