Oh mon Dieu

Parecia magia aquela participação activa nas compras domésticas, verificando todos os cheiros dos produtos de limpeza e desodorizantes para a casa, a avaliação cuidada dos queijos, a palpação determinada das frutas e a conferência da falta de mazelas nos legumes. Até anotava as faltas no bloquinho a isso destinado. Chegava a sugerir um regresso às compras nos dias dos frescos de cada um dos hipermercados das redondezas e também, amiúde, a necessidade de mais um electrodoméstico fundamental como uma faca para congelados, uma fiambreira, ou uma iogurteira.

Paulatinamente, as nossas saídas a dois passaram a ser preenchidas com intermináveis buscas pelas catedrais de consumo para comprar desde as couves até aos imprescindíveis consumíveis expostos na FNAC.

É claro que no conforto do lar cumpria com o esperado, produzindo um sexo competente, na segurança de quem me conhecia há tempo suficiente para saber qual a exacta acção que produzia maior impacto nos meus centros de prazer, sem deixar de referir de permeio que precisávamos de comprar um sofá novo, umas bolinhas de óleo para banho de imersão ou umas almofadas ergonómicas, conforme o local em que praticávamos o que tinha sido alicerce para vivermos sob o mesmo tecto.

Só que aquela condição de passar de parceira a assistente de compras de uma imobiliária insistentemente me fazia tinir na cabeça a adaptação de uma anedota, já que me sentia com tomates para ter outra engenharia de vida e pouco amaricada para ser decoradora. Colei no espelho da entrada um bilhete A4, a resmungar “Oh mon Dieu de la France, je n’ai plus de patience* para aguentar esta merda toda” e parti.

(Imagem: © Vive la France)

* Oh meu Deus da França, eu já não tenho paciência

Primeiro Dia da Árvore

As orelhas são aos pares como os olhos, as narinas, os braços, os seios, as mãos, as pernas, as nádegas e os pés. Esta deve ter sido a razão fundamental para o Manuel, a Luísa, o Cap, a minha mana Maria e o Tomás me convidarem para operar neste blog.

Ou talvez a minha longa vivência no divã de um psi torne aceitável que venha para aqui estender-me. Ou melhor, hoje estendo-me ao comprido e nas próximas serei mais rapidinha.